O caminho de São Tiago

21 07 2008

O Blog do Boiadero é também lugar de cultura e cosumes do interior, por isso publico aqui alguns contos sobre o dia-a-dia na fazenda, alguns de minha autoria e outros de contadores de histórias por esse Brasil afora. Hoje é a vez de Olavo Romano.

O conto

O pai precisava resolver uns negócios na cidade e chamou o filho para ir junto. Fazia muito tempo que Tiãozinho tinha ido a São Tiago a última vez. Estava agora com dez para onze anos, era quase um rapazinho.

Botou arreio novo no rosilho, com peitoral e rabicho, coxinilho e capoteira. Tomou banho geral, vestiu o terno branco, bebeu um café reforçado e, dia amanhecendo, metia o pé na estrada.

Viagem estirada, a bem dizer quatro léguas, oito ida e volta. Coisa pra macho. Por isto ia tão intimado.

Na cidade, chupou picolé e experimentou refresco de groselha. Escutou conversa de homem na farmácia do João Reis, depois deu umas voltas na praça da Matriz. Comeu lombo de porco com lingüiça, tutu de feijão e couve picadinha na pensão do Luís Caputo. Escutou muita música caipira no rádio do Vicente Mendes, enquanto fazia suas compras: um pente “Flamengo”, um espelhinho de bolso com o escudo do Vasco nas costas, um canivete “Corneta”, mais dúzia e meia de bolinha de gude pra encantar as vistas e invejar os irmãos.

Duas e pouco, tudo resolvido, saía de volta, acompanhando no pequira a marcha larga da Princesa, besta baia de estimação do pai.

Era janeiro, dias quentes e grandes. Chegou em casa com céu ainda claro. Trocou de roupa, jantou, foi pro alpendre conversar com os agregados. Manuel Vaqueiro pergunta:

– Comé, Tiãozinho, gostou da viagem?

O menino tinha as pernas raladas, o traseiro doendo daquele estirão de quase oito léguas. Mas trazia a alma cheia de uma novidade muito bonita. Estufou o peito, tomou um ar solene e revelou ao grupo de empregados a sua importante descoberta:

– Olha, gente, quem quiser saber como este mundo é grande, viaje pros lados de São Tiago!

*Olavo Romano teve casos publicados em jornais e revistas. Em livros como Minas e seus casos e Memórias meio misturadas de um jacaré de bom papo focaliza o jeito, a fala e a vida no interior mineiro. A última obra do escritor é Pés no Caiçara, um olhar sobre a Pampulha.





Se cair, trate de se levantar

4 07 2008

Quando menino, meu pai me levou para andar a cavalo na fazenda de um conhecido dele. Depois de cerca de 40 minutos de viagem chegamos à fazenda. Eu já estava doido para sair galopando pelos pastos. Até tinha pedido para meu pai que me comprasse um chapéu, pois queria estar à carater.

Não era a primeira vez que montava à cavalo… Meu pai já tinha me levado outras vezes e sempre gostei muito. Mas dessa vez eu estava entusiasmado, pois meu pai havia me prometido comprar um cavalo para que pudessemos passear de vez em quando.

Quando chegamos, meu chapéu na cabeça, o coração batendo forte… quis logo ver os animais. Foi o que fizemos. No pasto avistei uma égua bonita, marrom, com uma estrela branca na testa… O conhecido de meu pai, dono da fazenda se virou para nós e disse:

-É aquela… a princesa. Não é uma beleza?

Eu concordei balançando a cabeça, meio abobalhado com o tamanho e a beleza do animal… Ele mandou um peão selar a égua para que eu pudesse cavalgar. Assim foi feito.

Logo que sentei no lombo, a danada estranhou e empinou uma, duas vezes, antes de começar a galopar em direção à estrada de terra da entrada da fazenda. Foi quando eu ví a coisa ficar feia. Garoto, sem experiência… Mas não tive medo, pelo contrário, me senti um cowboy de verdade.

A égua desceu galopando pela estrada, passou por uma porteira que estava aberta e saiu da fazenda. Foi quando percebi que não tinha mais o controle sobre o animal. Puxar as rédeas para traz com força não fazia com que ela parasse, pelo contrário, parecia deixa-la ainda mais nervosa e afoita… Eu era apenas passageiro e a bicha ia endireção à estrada principal…

Foi quando o peão, aquele que havia selado a égua para que eu pudesse montar, surgiu a meu lado montado em seu cavalo… ele se colocou em minha frente e com uma puxada brusca na rédea, seguida de um cutucão com as esporas na barriga do bicho, fez com que ele impinasse na minha frente. Só assim a égua parou de correr… O problema é que quando parou, me jogou para fora do lombo. Cai sentado em cima de um arbusto, que aparou minha queda. A égua ficou ali parada, bufando e rodando as orelhas em sinal de descontentamento.

Na queda não tive nenhum machucado sério. Apenas alguns arranhões. O peão desceu de seu cavalo, me ajudou a levantar e me entregou seu cavbalo dizendo:

-Monta, que eu levo a princesa.

Voltamos para a sede da fazenda, onde meu pai e seu conhecido nos esperavam. Os dois riam de mim e diziam que eu ainda tinha muito o que aprender. Concordei e disse que não tinha tido medo. Meu pai passou a mão em minha cabeça e disse as palavras que nunca vou esquecer:

-Isso garoto, você é forte e corajoso como um verdadeiro peão de rodeio.

Satisfeito entrei na casa para me lavar.

Diferente das pessoas que são criadas na cidade, na roça a coisa é diferente… O menino tem que aprender desde cedo a ser homem e ter coragem de montar novamente… Para não ficar traumatizado. Meu pai me ensinou isso. Trata-se de um bom ensinamento e que vale para tudo na vida.

Moral da história: Se cair, levante-se e monte novamente. Se não o fizer logo após o trauma, vai ter medo e não chegará perto de um cavalo nunca mais.